Óscares 2018 – A forma dos três cartazes?

Fez recenmente um ano desde o meu ultimo post e volto agora para cumprir a tradição avançando com as minhas previsões dos Óscares.

O ano passado não correu de todo mal sendo que existia um candidato aparentemente escolhido à partida mas que, na recta da meta, foi ultrapassado. Claro está que estou a falar de La La Land e Moonlight.

Este ano as coisas não se afiguram de forma muito diferente a meu ver. Passámos as últimas semanas a ouvir falar de “The Shape of Water” como o grande candidato mas, a meu ver, este será ultrapassado muito possivelmente pelo brilhante “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”.

Ambos são filmes muito bons à sua maneira. Os três cartazes trazem-nos uma história que, apesar de original, podia muito bem ter-se passado em qualquer ponto da América e não só, contando a luta de uma mãe coragem, interpretada por Frances McDormand, que não descansa e fará de tudo para encontrar o responsável pela morte da filha, doa a quem doer e aqui fica também atribuído o Óscar para Melhor Actriz. Além do tema predominante temos também apontamentos da luta racial e neste caso da desculpabilização dos negros relativamente a todos os problemas sociais e pela prestação no seu papel de opressor e a construção e desconstrução da personagem entrego também o Óscar para Melhor Actor Secundário a Sam Rockwell.

Já no lado de “The Shape of Water” a história é menos provável a menos que acreditemos em monstros marinhos com formas humanas e recheados de sentimentos. É sem dúvida uma história interessante a do relacionamento de uma empregada de limpeza dos laboratórios secretos americanos no tempo da guerra fria com uma criatura marinha do Amazonas em que todas as barreiras, da linguistica à social e até… anatómica, são ultrapassadas. Pelas sequências e todo o arranjo será bem entregue o Óscar a Guillermo del Toro. Também aqui deve ser entregue o Óscar de Melhor Banda Sonora Original.

Sendo o único filme nomeado para Melhor Filme que está igualmente nomeado para Melhor Argumento Adaptado a vitória
será fácil para “Call me by your name”. Já no que diz respeito ao Argumento Original tanto o Get Out como Lady Bird
podem fazer concorrência aos Três Cartazes à beira da estrada. O Get Out apresenta-se com um argumento disruptivo face ao que estamos habituados nestas cerimónias, sobretudo quando consideramos que está nomeado para Melhor Filme e isso pode até dar em surpresa. Ainda assim, garantidamente o que mais me impressionou foi “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”.

Na categoria de Melhor Actor Principal fico dividido mais por questões emocionais do que lógicas. Pela lógica não
tenho dúvidas em atribuir finalmente o Óscar a Gary Oldman que já o merecia de papeis anteriores e foi uma excelente escolha para interpretar o tenaz Winston Churchill algo que ele fez próximo da perfeição. De resto gostava de ver o Daniel Day-Lewis ganhar mais uma vez mas não necessariamente pela prestação em “Phantom Thread”, filme que merece garantidamente o Óscar de Melhor Guarda Roupa, mas sim pela consagração como o maior de todos os tempos, tendo já vencido por 3 vezes (My Left Foot, There Will be Blood e Lincoln) aos quais se acrescentam duas nomeações (In the Name of the Father e Gangs of New York).

Para finalizar devo também referir a vitória de Coco como Melhor Filme de Animação. Numa altura em que os filmes de
animação pouco nos trazem já de diferente (longe vão as novidades de produção de Toy Story por exemplo) este Coco
distancia-se dos demais pelo seu argumento que vale o Óscar.

Nas categorias mais técnicas às quais habitualmente dou destaque podemos finalmente ter alguns oscares para o
“Dunkirk”. Foi sem dúvida um filme que gostei bastante e uma excelente adaptação da maior operação de resgate/evacuação de tropas sendo também curioso que a história que nos é apresentada coincida com o tempo que se vive em Darkest Hour, outro dos filmes nomeados para Melhor Filme. Levará para casa o Óscar de Edição e tambem Mistura Sonora e pode ainda levar a Melhor Fotografia ainda que, nesta última, temos também de considerar a continuação do filme de culto da década de 80, Blade Runner.

La La Óscares ou um desaire à Luz da Lua?

Chegado o grande dia da festa do cinema cumpro também eu a tradição de me manifestar sobre os filmes dos Óscares.

Esta poderá efectivamente ser a noite de La La Land que, com as suas 14 nomeações (ainda que apenas possa ganhar 13 Óscares visto estar duplamente nomeada numa das categorias), leva vantagem sobre os demais. No entanto também todos sabemos que quanto mais alto se chega maior é a queda, o que neste caso se pode traduzir num grande fiasco de poucos Óscares amealhados na contabilização final da noite.

Nas categorias ligadas à música é de prever uma forte predominância com “City of Stars” interpretado por Ryan Gosling a vencer a Melhor Canção Original e também a Melhor Banda Sonora. Na Melhor Fotografia a concorrência é muito cerrada e atrevo-me a dizer que qualquer um pode vencer mas a complexidade na obtenção dos jogos cromáticos com recurso apenas à luz natural é uma mais valia para La La Land.

Lion é também um bom concorrente nesta categoria. Este trata-se de um excelente filme que nos traz a história real de Saroo na busca pela sua familia há muito perdida. Comovente, tocante, uma excelente interpretação de Dev Patel (que pode muito bem valer-lhe o Óscar de Melhor Actor Secundário) uma fantástica interpretação de Sunny Pawar, o pequeno Saroo e para mim o Melhor Argumento Adaptado. Quanto à nomeação para Melhor Filme diria que não traz nada de novo pelo que não justificaria este Óscar, apesar de ser um excelente filme, dos que mais recomendo pelo seu todo.

Voltamos ao La La Land para falar na Mistura e Efeitos Sonoros, outras duas categorias onde pode ganhar ainda que por aqui os meus favoritos sejam Arrival e Hacksaw Ridge.

O Arrival não é um filme fácil, bem pelo contrário. Apesar de ser apresentado nos trailers como um filme sobre aliens o filme não é sobre eles… é sobre nós. É um filme que leva a várias reflexões, nomeadamente sobre o nosso futuro, sobre as escolhas que podemos ou não fazer e sobre comunicação. Pode surpreender na sonoplastia e também na Melhor Fotografia.

Já o Hacksaw Ridge tem as melhores cenas de cenários de guerra ainda que o objecto central seja o soldado Desmond Doss. Dificilmente vencerá o Óscar de Melhor Filme, Melhor Realizador ou mesmo Melhor Actor (apesar da prestação brilhante de Andrew Garfield) mas ao nível da Montagem e Som tem uma palavra forte a dizer.

Falar de Melhor Actor é, para mim, falar de Casey Affleck. Muito se falou de Ryan Gosling e da sua prestação à frente de um piano que não sabia tocar apenas 3 meses antes de gravar a primeira cena ao piano (notável) e da complexidade técnica de um “simples” actor misturar o piano com danças e cantorias. Existe a possibilidade dele ganhar mas para mim este será mesmo o ano de confirmação de Casey Affleck que nos conta a história dramática de Lee Chandler com toda a profundidade necessária da personagem. Há quem diga que se trata apenas de uma pontaria bestial no casting ao escolherem um actor que já habituou a um ar sofrivel. Eu digo que não. Affleck consegue reproduzir na perfeição as variações de humor da história desta personagem. Durante a primeira hora de filme vamos conhecendo a pouco e pouco o Lee Chandler do passado, uma pessoa alegre e divertida que contrasta com um sempre triste, desinteressado, desinteressante e deprimido Lee Chandler de agora, até ao momento em que percebemos os motivos desta radical mudança. É uma prestação absolutamente brilhante num filme que para ser bom teria de ter menos uns 45m.

No que respeita ao Óscar de melhor atriz a minha preferência iria inteirinha para Amy Adams que confere toda a profundidade necessária a Louise em “Arrival”. No entanto, diria que de forma inexplicável, não está no lote de nomeadas. Sem essa opção resta-nos a Emma Stone que, tendo sido uma segunda escolha a par com Ryan Gosling, esteve muito bem no papel desempenhado.

Para o fim deixamos os prémios mais apetecidos mas onde menos surpresa deve haver: Melhor Filme e Melhor Realizador. La La Land deve mesmo arrecadar os dois galardões. Damien Chazelle presenteia-nos com algo de grande complexidade de execusão (como por exemplo os planos que aproveitam a luz natural de fim de dia em LA conseguidos in extremis com janelas de tempo que não iam além dos 30m) e um musical leve, bom de ver mesmo para quem abomina musicais. Já para não falar do toque de Midas que deu ao reduzido orçamento que tinha à disposição, o qual transformou num bom filme com lucros muito apetecíveis.

Além dos já referidos Hacksaw Ridge, Arrival, Lion e Manchester by the Sea a concurso estão ainda bons filmes como Moonlight que toca em temas muito sensíveis como o racismo, toxicodepêndencia e homossexualidade mas ao qual também parece que falta um pouco mais (como no Manchester by the Sea) sendo essa falha colmatada pelo bom desempenho de Mahersala Ali sério candidato a melhor actor secundário a par com Dev Patel. Jeff Bridges desempenha também um bom papel no não menos bom Hell or High Water mas não traz um Jeff Bridged diferente daquilo que estamos habituados. Lucas Hedges também tem um bom arranque mas diria que ainda é cedo.

Se nos actores secundários podem existir dúvidas o mesmo não diria das actrizes já que Viola Davis, já habituada ao papel, transporta para o grande ecrã a sua muito aclamada prestação em palco.

Em resumo: O La La Land chega como muito nomeado mas pode perder em muitas categorias sendo que Arrival pode roubar-lhe algumas e surpreender com Melhor Mistura Sonora, Melhores efeitos sonoros e Melhor Fotografia. Manchester by the Sea também pode ficar com o Melhor Actor e o Argumento Original mas a Melhor Actriz não deve fugir sendo Emma Stone a grande premiada. Damien Chazelle pode ser ultrapassado na recta final por Barry Jenkins ainda que não seja muito provável. O que não deve escapar é mesmo Melhor Filme, Música e Banda Sonora.
Avizinha-se uma sessão com prémios bem distribuídos sendo que será dificil falar num derrotado da noite, a menos que a Academia volte a surpreender e atribua além do Melhor Realizador o prémio de Melhor Filme também a Moonlight, que também não seria completamente descabido.